
Uma investigação conduzida por pesquisadores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), no Paraná, apontou melhora na memória de pacientes diagnosticados com Alzheimer após a utilização de cannabis medicinal.
O estudo, divulgado em outubro de 2025 na revista científica Journal of Alzheimer’s Disease, acompanhou durante seis meses um grupo de idosos e verificou avanços em avaliações de memória entre os participantes que fizeram uso do extrato da planta.
O ensaio clínico contou com a participação de 28 voluntários com idades entre 60 e 80 anos e é considerado pelos autores o acompanhamento mais extenso já realizado no mundo envolvendo canabinoides em pessoas com Alzheimer.
Durante a pesquisa, foram analisados os efeitos de um extrato do tipo full spectrum, que reúne pequenas concentrações de THC (tetrahidrocanabinol) e CBD (canabidiol), substâncias naturalmente presentes na cannabis.
De acordo com o coordenador do estudo, Francisney do Nascimento, o trabalho seguiu o protocolo mais rigoroso adotado em pesquisas clínicas.
“Nesse modelo de estudo, parte dos participantes recebe o medicamento e a outra parte recebe placebo. Ao final, os resultados dos dois grupos são comparados”, explicou em comunicado.
Avaliação dos resultados cognitivos
Ao término das 26 semanas de acompanhamento, os pacientes que utilizaram o extrato apresentaram melhora cognitiva avaliada por meio do Mini-Exame do Estado Mental (MMSE), instrumento amplamente empregado na análise das funções mentais.
Segundo Nascimento, o resultado se destaca porque os ganhos foram observados especificamente em testes relacionados à memória, e não apenas em aspectos comportamentais.
“Este é o primeiro ensaio clínico no mundo que demonstra melhora da memória em pacientes com Alzheimer a partir do uso da cannabis. Estudos anteriores mostravam redução de agitação e ansiedade, mas em relação à memória, este foi o primeiro trabalho”, afirma o pesquisador.
Atualmente, o Alzheimer está entre as principais doenças neurodegenerativas, impactando de forma significativa a vida dos pacientes e de seus cuidadores. As opções terapêuticas disponíveis ainda apresentam resultados limitados, o que reforça a busca por novas estratégias de tratamento.
Possíveis mecanismos de ação no cérebro
Os pesquisadores destacam que os canabinoides vêm sendo investigados por sua atuação em processos relacionados à progressão da doença.
A principal hipótese é que essas substâncias possam ajudar a reduzir inflamações no tecido cerebral e o estresse oxidativo, fatores que contribuem para a degeneração dos neurônios.
“Estudos laboratoriais com modelos animais já indicam que o THC pode estimular a neurogênese no hipocampo, região do cérebro associada à memória”, explica Nascimento.
Para o médico responsável pelo ensaio e professor do curso de medicina da Unila, Elton Gomes da Silva, os achados reforçam o interesse em aprofundar as pesquisas com diferentes combinações e concentrações dos compostos da cannabis.
Segundo ele, outros estudos já estão em andamento na universidade com o objetivo de comparar dosagens e avaliar efeitos mais amplos do tratamento em pacientes com Alzheimer.
Segurança e perspectivas futuras
Outro ponto relevante observado ao longo do acompanhamento foi a ausência de efeitos adversos significativos, indicando que o uso do extrato, nas doses analisadas, apresentou boa tolerabilidade entre os participantes.
Esse resultado reforça a importância de novas pesquisas para ampliar o conhecimento sobre a segurança e a eficácia da cannabis medicinal no tratamento do Alzheimer.



